Gosto quando as entidades narradoras se mostram em matéria. Têm voz, saliva, dentes, glote, língua, e desse aparato de carne, ossos e líquidos, trazem à tona uma humanidade que ressoa grave ou aguda, gritante ou sussurrada, dando contorno a todas as contradições que unem espírito e corpo, no que chamamos de vida humana.
Os dias de sempre, da escritora Helena Terra, me pegou pela voz de Mariana, seus pensamentos e a forma de expressá-los. Uma narradora cujo espírito tropeça o tempo todo na própria existência e na matéria que rege a vida social. E eu adoro narradoras que tropeçam em si mesmas e no mundo, e assim revelam de si aquilo que o discurso acaba buscando camuflar.
Os dias de sempre nos apresenta Mariana e suas relações íntimas, assim como todo um contexto social e político e uma estrutura que por vezes parece tão solidificada que se torna quase impossível desmanchar-se no ar. Helena Terra não traça diferença entre o íntimo e o público, feito um bicho de duas cabeças, um vai comendo e parindo ao outro, um refletindo o outro, como num jogo de espelhos, espelho no qual Mariana custa a se reconhecer e quando se reconhece sentimos que talvez adoraria poder arrancar a própria cara e vestir uma mais de acordo.
Eu gosto bastante de narrativas que trazem a família ao centro do debate e que discutem justamente essa possibilidade ou impossibilidade de escapar do destino do sangue-social. Gosto quando as personagens se veem presas justamente na fronteira do escape, porque parece, afinal, que se escapa ao mesmo tempo em que não se escapa do destino do sangue-social.
Outro ponto alto do livro é a forma como Helena Terra modula a voz da Mariana adulta, jovem e criança, sem condescendências, mas com consciência de que o olhar da criança é outro e seu corpo-pensamento implica em sua fala, assim como a Mariana jovem não é feito Mariana adulta, guardando, talvez, a porta dos dois mundos em si. Enquanto a voz da Mariana criança é resultado de uma língua que recusa domesticar-se, a da Mariana adulta se transforma, talvez aceitando certos moldes, sem deixar de guardar revolta contra os próprios aceites. Uma língua sempre e ainda rebelde, que sente dor quando acaba por caber na boca.
Em dias de sempre, encontramos uma prosa fluida, bem modulada, um ritmo sedutor e personagens profundamente humanas, que bailam nas contradições da vida, e não podem ser salvas e nem odiadas por completo. Esse lugar do vão, os territórios de difícil estabilidade para nossas mentes desejosas da lógica que a tudo dá ordem. Mariana é fruto dessas contradições, dessa mãe, desse pai, desses gêmeos, que não pendem de todo para um lado nem para o outro, mas habitam o único lugar possível de pulsação da humanidade. Qualquer outro talvez seja mera ilusão.
A abordagem dos temas que perpassam o livro é a de uma mulher branca e rica, que não parece caber muito bem em sua classe, embora caiba, porque é difícil livrar-se completamente das heranças, apresentando seu passado, não como quem o revisa, mas como quem o vive, e esse passado reverbera em seu presente como num diálogo que se faz além do tempo.
Acompanhamos a relação de lealdade de Mariana à sua babá Nena, a quem reconhece como mãe tanto quanto Júlia, a mãe biológica – por vezes ficamos com a sensação de que Nena é dona de um pedaço mais materno em Mariana, mas logo a narrativa reposiciona Júlia na visão da própria filha e não há mesmo lugar de descanso nas relações profundas. Todas essas relações, e sobretudo a relação com Nena, moldam contundentemente a ética de Mariana, sendo capaz de desviá-la de certo curso do legado de sua família, mas esse é um livro que também abre espaço para nos perguntarmos se Mariana já nasce com tendência ao escape, se é a relação com Nena que lhe cava a fuga ou se é resultado do próprio tempo histórico e das próprias brechas em sua família essa indomesticação precoce. Talvez não haja uma só resposta, uma vida é sempre fruto de algumas pequenas explosões.
Os dias de sempre, cujo título se desdobra em camadas ao longo da narrativa, é um livro que aborda o racismo, o abismo de classe, o machismo, as violências sociais e estruturais que se alastram muitas vezes de forma silenciosa entre nós brasileiros, como se sem alardes pudesse ganhar um espaço de naturalização que é ainda mais violento. O romance também se ambienta na época da ditadura militar no Brasil, trazendo tal contexto de forma pontuada, como se volta e meia uma porta da casa abrisse e deixasse antever os “primos” acolhidos pelo pai de Mariana. Pontuação condizente com o absorvido pela guria atenta e curiosa. Com o passar do tempo é como se a fresta da porta fosse cada vez mais se escancarando, conforme Mariana passa a entender mais da vida e ao passo que o próprio contexto se agrava.
Helena Terra não é condescendente com sua narradora, a deixa viver, respirar, tropeçar, sujar-se na trama da própria vida, e é o narrar de Mariana que traz refresco e novas possibilidades de olhar para as temáticas desenvolvidas no romance. Os dias de sempre resulta em uma narrativa honesta, com um trabalho de linguagem bem desenvolvido, uma trama que recua e avança no tempo de maneira muito bem realizada e com personagens e contextos interessantes, capazes de seduzir do começo ao fim.
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Os dias de sempre
Helena Terra*
Romance
Besouros abstêmios
2023
*Helena Terra nasceu em Vacaria e vive em Porto Alegre. Publicou os romances A Condição Indestrutível de Ter Sido (Editora Dublinense, 2013), Bonequinha de Lixo (Editora Diadorim, 2021) e Os dias de sempre (Editora Besouros Abstêmios, 2023). Organizou, com o escritor Luiz Ruffato, a antologia Uns e Outros (TAG Livros, 2017). É coautora na novela Bem que Eu Gostaria de Saber O Que é O Amor (Editora Bestiário, 2020, com o ator e escritor Heitor Schmidt). É jornalista e editora na Besouros Abstêmios. É também conselheira e vice-presidente da Associação Literatura Livre, no Rio de Janeiro.