Fluxo de consciência estilhaçado. Uma fluidez que volta e meia explode. Se choca contra as paredes da casa. Contra os ossos do corpo. Essa mulher abafada que sufoca e nos provoca no fôlego. Apneia dispneia eupneia. São muitas as possibilidades de se relacionar com o ar que entra e sai dos pulmões, e, por vezes, se recusa a fluir. A vida, o trabalho, o capitalismo, uma tia que se autoextermina e vira fantasma gasoso, comprimidos para dormir para sorrir para fugir para permanecer, uma cidade do interior onde todos acompanham a vida de todos, um ambiente de trabalho abusivo, a tradicional família mineira, uma vida que vai travando a garganta. O gosto de metal na parte inferior da boca. Os caquinhos, os milhões de espelhos do caleidoscópio, a jarra de barro, bum (
Marcela Fassy vai abrindo parênteses e mais parênteses e dando à sua personagem um ritmo de quem tenta correr atrás do ar e se cansa e explode e tenta de novo e assim até que algo reanime a vida. Abafada traz imagens, referências, linguagem e personagens em movimentos muito vivos, que mesmo em uma história sobre a falta de ar, nos lembram o tempo inteiro a importância de respirar até o pulmão arder.
Fico com as imagens de Woolf Plath Ana C. e de todas as mulheres que se autoexterminaram e parecem carregar fantasmas em comum. Por quanto tempo as mulheres que se recusam a seguir os padrões impostos de feminilidade/mulheridade permaneceram-permanecerão abafadas, enclausuradas em suas subjetividades reprimidas, em seus desejos estancados?
Por fim, achei muito interessante ser justamente numa caverna o lugar onde a personagem talvez abra mão de todas as ilusões e respire a mais simples verdade da vida, verdade mais sentida e respirada que raciocinada. A caverna aqui ganha o simbolismo de um novo parto, a fissura úmida da natureza que possibilita o vislumbre do mistério da vida. Um mistério que é do corpo, inclusive.
Que bom que hoje podemos ler tantas mulheres incríveis que se fazem notar por suas escritas transpiradoras. Marcela Fassy é uma delas. Em Abafada mistura um tom retrô com a ousadia contemporânea e faz uma dançada boa de se acompanhar. Recomendo.
ps: Tem uma brincadeira que faço comigo mesma. Gosto de colecionar as felicidades clandestinas que existem nas narrativas. Coisa de garimpo, nem sempre encontro. Quando encontro fico faceira. Em Abafada ganhei essa aqui pra coleção:
“somos acometidas por uma crise de riso, o gás do refrigerante formando aquelas bolhinhas, fazendo aquele barulho de gás em expansão, gargalhadas flutuando no ar, meu corpo e o de Ivana se sacudindo, nossas barrigas se contorcendo de tanto rir, o oxigênio estalando, rimos tanto que ficamos sem ar, Ivana deixou entornar um pouco de Coca-Cola, Ai meu deus, tomara que a enfermeira não entre agora, rimos rimos rimos (
o riso aproxima as pessoas, o riso e os refrigerantes contrabandeados nos aproximam muito, mais do que qualquer outra coisa, mais até mesmo do que o fato de Ivana ter me encontrado sangrando pelada no chão da cozinha, me trazido até aqui e permanecido ao meu lado (
o riso, as travessuras, as gostosuras, coisas que aproximam as pessoas, criam bolhas de ar em torno delas, estalam, espocam, o barulho da uma latinha de Coca-Cola se abrindo no silêncio asséptico de um quarto de enfermaria, sódio e açúcar (
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Abafada
Marcela Fassy*
Romance
Reformatório
2025
*Marcela Fassy nasceu em Belo Horizonte, em 1984. É historiadora (UFMG), Especialista em Artes Visuais (Senac/MG) e Mestre em Ciências Humanas (UFVJM/Museu do Louvre). Trabalha como arte-educadora no Instituto Brasileiro de Museus. Seu livro de contos As Putas Escrevem (Urutau, 2024) recebeu menção honrosa no Concurso Nacional da UBE/PB. Foi finalista do Prêmio Internacional Pena de Ouro com um conto integrante do seu livro Oniros (Urutau, 2022). Abafada, livro vencedor do Prêmio Caio Fernando Abreu 2024, é seu primeiro romance.