Cavala,

Meu coração parece um cavalo novo com fogo nas patas, correndo em direção ao mar. Essa frase é de Grace Passô. Lendo Cavala, romance de estreia de Mariana Higa, lembrei da frase com frequência. Apesar da Cavala do livro sempre aparecer como antecedente de uma tragédia na vida de Izabel, ela carrega em si essa ambiguidade, de uma vida pulsante e livre, que com fogo nas patas corre para a imensidão do mar. Talvez a grande tragédia em Cavala seja essa vida contida, aprisionada na consequência de ser mulher no tempo de Izabel. A protagonista é atravessada por diversas violências desde a infância. Violências abrigadas no íntimo familiar e que se refletem e são reflexos da violência estrutural dirigida às mulheres. Violências que são transmitidas mulher a mulher, numa corrente que pode desamparar, não fossem as quebras que se realizam no tempo.

Curioso ser no fantástico e na literatura que Izabel encontre sua possibilidade de vida, de liberdade, de selvageria, e aí lembro de bel hooks afirmando: o que não podemos imaginar não pode vir a ser. Há todo um universo simbólico, todo um desejo e toda uma mulher que se realiza nas corridas em pelo ao breu da Cavala, nas conversas com os pares da escrita, nas leituras de ficção e na escrita literária, em um mundo forjado na brecha entre o real e o fantástico. Na vida cotidiana a protagonista segue enredada na teia violenta de um Brasil patriarcal e em certo momento também ditatorial, já que o romance acompanha a instauração do regime militar no Brasil.

Os momentos em que Izabel encontra a Cavala são o ponto alto do livro para mim, e essa ambiguidade entre anunciação de tragédias que são também momentos de liberdade extravagantes dão ao romance uma camada a mais, possibilitando abertura de leitura. Até na linguagem o encontro se reflete, sinto a narrativa ganhando uma fluidez e uma liberdade e fugindo da formalidade que Izabel por vezes carrega. Gostei também de como Mariana traz a Cavala sem grandes afetações, com o fantástico fazendo parte da vida de Izabel, numa representação também simbólica das possibilidades da existência feminina. A Cavala como uma extensão de Izabel, a Cavala como sua pulsão de vida. A frase de Grace sempre me remete a um grito contido na garganta, e essa imagem do cavalo novo com fogo nas patas indo em direção ao mar me remete à presença dupla do grito e da contenção do grito, do desejo em vias de e da interrupção do desejo. Quando o cavalo afogueado encontrar o mar, o que acontecerá com seu fogo? A frase de Grace me persegue durante a leitura. A Cavala no romance também conduz Izabel ao oceano. 

Outro momento interessante é o encontro de Izabel com a escritora Clarice Lispector e a amizade entre as duas, acrescentando uma leitura de classe ao livro. Duas mulheres que leem e escrevem e são atravessadas pela violência do mundo, mas jamais da mesma forma e na mesma medida. Os pesos dos atravessamentos selam os diferentes destinos das duas, embora possuam pontos de encontro. Aliás, o romance costura alguns elementos e movimentos da prosa de Lispector ao enredo vivido por Izabel, a presença das galinhas como oráculos das primeiras tragédias, o romance platônico com o professor mais velho e profundamente marcado pela troca intelectual, a estranheza e o desencaixe com o mundo carregados por Izabel, a cartomante de Clarice que prevê o futuro de Izabel e a encontra em seu final. Para quem conhece o universo Clariceano, é fácil e gostoso perceber o diálogo.

Gostei, particularmente, do final, onde Mariana não faz condescendência com sua protagonista. Selando um destino meio macabeiano, sem trair a dureza da vida diante do corpo e da existência de uma mulher, mas permitindo a imensidão, seja no dorso da Cavala avançando pela floresta escura, seja no rosto da Cavala refletido na água, seja no livro que Izabel consegue dar o ponto final. A mulher que consegue contar a própria história deixa pegadas que podem guiar outras mulheres para que novos caminhos sejam traçados.

Vou querer ler mais do que a Mariana vier a escrever.

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Cavala,

Mariana Higa*

Romance

Patuá

2024

Mariana Higa* nasceu em 1985, no ABC Paulista, onde também reside. É autista nível 1 de suporte e lida diariamente com os desafios da Síndrome de Sjögren, uma autoimune rara. É formada em Letras pela Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Trabalhou por mais de uma década com Recursos Humanos. Este é seu romance de estreia.

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