O horror, as mulheres não precisam ir buscar muito longe. Ele pode surgir a cada esquina escura, cada beco, cada relação com um homem, no abraço de um tio, pai ou padrasto, num cabelo raspado, no banheiro da escola, na cozinha de casa, numa responsabilidade que chega cedo demais, num corpo que se recusa a obedecer. O horror se apresenta muito cedo às mulheres. Espreita suas existências.
Nas narrativas curtas de Sangue de Cabra, Mylena Queiroz pega esse horror cotidiano que insiste nas mulheres e faz dele matéria de ficção em suas histórias (de horror). E quando faz isso, Mylena subverte o horror, muda seus contornos, dá uma rasteira na realidade e nos oferece mulheres-morcego que colocam suas próprias narrativas de cabeça para baixo. Há muita vingança, ironia fina, humor e imagens que arrepiam as entranhas de tão sentidas, e veja, nenhum monstro precisa aparecer, além de todos aqueles que já conhecemos tão bem.
Gostei bastante de como cada narradora tem uma voz, uma forma de acomodar as palavras, um ritmo, uma presença e uma força. Nenhuma narrativa se repete, apesar de tratarem do mesmo universo violento, há sempre uma surpresa, uma torção, uma invenção que possibilita a escrita de uma nova história. Gostei também do trabalho em camadas e dos subterrâneos que se presentificam em algumas das histórias. É preciso escavar pra chegar nos tesouros que Mylena propositalmente escondeu.
Sangue de Cabra é também um livro que a gente pode se pegar rindo no final (bem, eu me peguei), diante de uma imagem de corpos de homens (ex escrotos) sendo arrastados por cordas, depois de terem sofrido alguns tipos de tortura (e não ri só pela máscara do João Kleber com o Ragatanga de fundo), é que já choramos tanto na realidade com a imagem invertida, e sabemos que ainda vamos seguir chorando mais, que sabe, a ficção tem esse poder de libertar nossa moral e nos possibilitar a vingança simbólica. A mais deliciosa delas vem pela via do humor que suporta todo um horror nas costas.
Neste livro as cabras sangram, e é com sangue nos olhos que seguem, arrebatam, conjuram e se insurgem.
O que eu mais gosto em Sangue de Cabra é acompanhar uma escritora que, assim como suas personagens, não teme olhar no olho do abismo.
“Ele pode ser ruim como for. Mas eu, eu sou runhenta.”
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Sangue de Cabra
Mylena Queiroz*
Contos
Patuá
2025
*Mylena Queiroz nasceu e cresceu no agreste pernambucano. É professora de Teoria Literária na UECE e doutora em Literatura e Interculturalidade pela UEPB, com período sanduíche em Hamburgo. É autora de dezenas de textos publicados nacional e internacionalmente sobre literatura brasileira. Sangue de Cabra é seu livro de estreia na ficção.