Sangue de Cabra

O horror, as mulheres não precisam ir buscar muito longe. Ele pode surgir a cada esquina escura, cada beco, cada relação com um homem, no abraço de um tio, pai ou padrasto, num cabelo raspado, no banheiro da escola, na cozinha de casa, numa responsabilidade que chega cedo demais, num corpo que se recusa a obedecer. O horror se apresenta muito cedo às mulheres. Espreita suas existências.

Nas narrativas curtas de Sangue de Cabra, Mylena Queiroz pega esse horror cotidiano que insiste nas mulheres e faz dele matéria de ficção em suas histórias (de horror). E quando faz isso, Mylena subverte o horror, muda seus contornos, dá uma rasteira na realidade e nos oferece mulheres-morcego que colocam suas próprias narrativas de cabeça para baixo. Há muita vingança, ironia fina, humor e imagens que arrepiam as entranhas de tão sentidas, e veja, nenhum monstro precisa aparecer, além de todos aqueles que já conhecemos tão bem.

Gostei bastante de como cada narradora tem uma voz, uma forma de acomodar as palavras, um ritmo, uma presença e uma força. Nenhuma narrativa se repete, apesar de tratarem do mesmo universo violento, há sempre uma surpresa, uma torção, uma invenção que possibilita a escrita de uma nova história. Gostei também do trabalho em camadas e dos subterrâneos que se presentificam em algumas das histórias. É preciso escavar pra chegar nos tesouros que Mylena propositalmente escondeu.

Sangue de Cabra é também um livro que a gente pode se pegar rindo no final (bem, eu me peguei), diante de uma imagem de corpos de homens (ex escrotos) sendo arrastados por cordas, depois de terem sofrido alguns tipos de tortura (e não ri só pela máscara do João Kleber com o Ragatanga de fundo), é que já choramos tanto na realidade com a imagem invertida, e sabemos que ainda vamos seguir chorando mais, que sabe, a ficção tem esse poder de libertar nossa moral e nos possibilitar a vingança simbólica. A mais deliciosa delas vem pela via do humor que suporta todo um horror nas costas.

Neste livro as cabras sangram, e é com sangue nos olhos que seguem, arrebatam, conjuram e se insurgem.

O que eu mais gosto em Sangue de Cabra é acompanhar uma escritora que, assim como suas personagens, não teme olhar no olho do abismo.

“Ele pode ser ruim como for. Mas eu, eu sou runhenta.”

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Sangue de Cabra

Mylena Queiroz*

Contos

Patuá

2025

*Mylena Queiroz nasceu e cresceu no agreste pernambucano. É professora de Teoria Literária na UECE e doutora em Literatura e Interculturalidade pela UEPB, com período sanduíche em Hamburgo. É autora de dezenas de textos publicados nacional e internacionalmente sobre literatura brasileira. Sangue de Cabra é seu livro de estreia na ficção.

Cavala,

Meu coração parece um cavalo novo com fogo nas patas, correndo em direção ao mar. Essa frase é de Grace Passô. Lendo Cavala, romance de estreia de Mariana Higa, lembrei da frase com frequência. Apesar da Cavala do livro sempre aparecer como antecedente de uma tragédia na vida de Izabel, ela carrega em si essa ambiguidade, de uma vida pulsante e livre, que com fogo nas patas corre para a imensidão do mar. Talvez a grande tragédia em Cavala seja essa vida contida, aprisionada na consequência de ser mulher no tempo de Izabel. A protagonista é atravessada por diversas violências desde a infância. Violências abrigadas no íntimo familiar e que se refletem e são reflexos da violência estrutural dirigida às mulheres. Violências que são transmitidas mulher a mulher, numa corrente que pode desamparar, não fossem as quebras que se realizam no tempo.

Curioso ser no fantástico e na literatura que Izabel encontre sua possibilidade de vida, de liberdade, de selvageria, e aí lembro de bel hooks afirmando: o que não podemos imaginar não pode vir a ser. Há todo um universo simbólico, todo um desejo e toda uma mulher que se realiza nas corridas em pelo ao breu da Cavala, nas conversas com os pares da escrita, nas leituras de ficção e na escrita literária, em um mundo forjado na brecha entre o real e o fantástico. Na vida cotidiana a protagonista segue enredada na teia violenta de um Brasil patriarcal e em certo momento também ditatorial, já que o romance acompanha a instauração do regime militar no Brasil.

Os momentos em que Izabel encontra a Cavala são o ponto alto do livro para mim, e essa ambiguidade entre anunciação de tragédias que são também momentos de liberdade extravagantes dão ao romance uma camada a mais, possibilitando abertura de leitura. Até na linguagem o encontro se reflete, sinto a narrativa ganhando uma fluidez e uma liberdade e fugindo da formalidade que Izabel por vezes carrega. Gostei também de como Mariana traz a Cavala sem grandes afetações, com o fantástico fazendo parte da vida de Izabel, numa representação também simbólica das possibilidades da existência feminina. A Cavala como uma extensão de Izabel, a Cavala como sua pulsão de vida. A frase de Grace sempre me remete a um grito contido na garganta, e essa imagem do cavalo novo com fogo nas patas indo em direção ao mar me remete à presença dupla do grito e da contenção do grito, do desejo em vias de e da interrupção do desejo. Quando o cavalo afogueado encontrar o mar, o que acontecerá com seu fogo? A frase de Grace me persegue durante a leitura. A Cavala no romance também conduz Izabel ao oceano. 

Outro momento interessante é o encontro de Izabel com a escritora Clarice Lispector e a amizade entre as duas, acrescentando uma leitura de classe ao livro. Duas mulheres que leem e escrevem e são atravessadas pela violência do mundo, mas jamais da mesma forma e na mesma medida. Os pesos dos atravessamentos selam os diferentes destinos das duas, embora possuam pontos de encontro. Aliás, o romance costura alguns elementos e movimentos da prosa de Lispector ao enredo vivido por Izabel, a presença das galinhas como oráculos das primeiras tragédias, o romance platônico com o professor mais velho e profundamente marcado pela troca intelectual, a estranheza e o desencaixe com o mundo carregados por Izabel, a cartomante de Clarice que prevê o futuro de Izabel e a encontra em seu final. Para quem conhece o universo Clariceano, é fácil e gostoso perceber o diálogo.

Gostei, particularmente, do final, onde Mariana não faz condescendência com sua protagonista. Selando um destino meio macabeiano, sem trair a dureza da vida diante do corpo e da existência de uma mulher, mas permitindo a imensidão, seja no dorso da Cavala avançando pela floresta escura, seja no rosto da Cavala refletido na água, seja no livro que Izabel consegue dar o ponto final. A mulher que consegue contar a própria história deixa pegadas que podem guiar outras mulheres para que novos caminhos sejam traçados.

Vou querer ler mais do que a Mariana vier a escrever.

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Cavala,

Mariana Higa*

Romance

Patuá

2024

Mariana Higa* nasceu em 1985, no ABC Paulista, onde também reside. É autista nível 1 de suporte e lida diariamente com os desafios da Síndrome de Sjögren, uma autoimune rara. É formada em Letras pela Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Trabalhou por mais de uma década com Recursos Humanos. Este é seu romance de estreia.

Abafada

Fluxo de consciência estilhaçado. Uma fluidez que volta e meia explode. Se choca contra as paredes da casa. Contra os ossos do corpo. Essa mulher abafada que sufoca e nos provoca no fôlego. Apneia dispneia eupneia. São muitas as possibilidades de se relacionar com o ar que entra e sai dos pulmões, e, por vezes, se recusa a fluir. A vida, o trabalho, o capitalismo, uma tia que se autoextermina e vira fantasma gasoso, comprimidos para dormir para sorrir para fugir para permanecer, uma cidade do interior onde todos acompanham a vida de todos, um ambiente de trabalho abusivo, a tradicional família mineira, uma vida que vai travando a garganta. O gosto de metal na parte inferior da boca. Os caquinhos, os milhões de espelhos do caleidoscópio, a jarra de barro, bum (

Marcela Fassy vai abrindo parênteses e mais parênteses e dando à sua personagem um ritmo de quem tenta correr atrás do ar e se cansa e explode e tenta de novo e assim até que algo reanime a vida. Abafada traz imagens, referências, linguagem e personagens em movimentos muito vivos, que mesmo em uma história sobre a falta de ar, nos lembram o tempo inteiro a importância de respirar até o pulmão arder.

Fico com as imagens de Woolf Plath Ana C. e de todas as mulheres que se autoexterminaram e parecem carregar fantasmas em comum. Por quanto tempo as mulheres que se recusam a seguir os padrões impostos de feminilidade/mulheridade permaneceram-permanecerão abafadas, enclausuradas em suas subjetividades reprimidas, em seus desejos estancados?

Por fim, achei muito interessante ser justamente numa caverna o lugar onde a personagem talvez abra mão de todas as ilusões e respire a mais simples verdade da vida, verdade mais sentida e respirada que raciocinada. A caverna aqui ganha o simbolismo de um novo parto, a fissura úmida da natureza que possibilita o vislumbre do mistério da vida. Um mistério que é do corpo, inclusive.

Que bom que hoje podemos ler tantas mulheres incríveis que se fazem notar por suas escritas transpiradoras. Marcela Fassy é uma delas. Em Abafada mistura um tom retrô com a ousadia contemporânea e faz uma dançada boa de se acompanhar. Recomendo.

ps: Tem uma brincadeira que faço comigo mesma. Gosto de colecionar as felicidades clandestinas que existem nas narrativas. Coisa de garimpo, nem sempre encontro. Quando encontro fico faceira. Em Abafada ganhei essa aqui pra coleção:

“somos acometidas por uma crise de riso, o gás do refrigerante formando aquelas bolhinhas, fazendo aquele barulho de gás em expansão, gargalhadas flutuando no ar, meu corpo e o de Ivana se sacudindo, nossas barrigas se contorcendo de tanto rir, o oxigênio estalando, rimos tanto que ficamos sem ar, Ivana deixou entornar um pouco de Coca-Cola, Ai meu deus, tomara que a enfermeira não entre agora, rimos rimos rimos (

o riso aproxima as pessoas, o riso e os refrigerantes contrabandeados nos aproximam muito, mais do que qualquer outra coisa, mais até mesmo do que o fato de Ivana ter me encontrado sangrando pelada no chão da cozinha, me trazido até aqui e permanecido ao meu lado (

o riso, as travessuras, as gostosuras, coisas que aproximam as pessoas, criam bolhas de ar em torno delas, estalam, espocam, o barulho da uma latinha de Coca-Cola se abrindo no silêncio asséptico de um quarto de enfermaria, sódio e açúcar (

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Abafada

Marcela Fassy*

Romance

Reformatório

2025

*Marcela Fassy nasceu em Belo Horizonte, em 1984. É historiadora (UFMG), Especialista em Artes Visuais (Senac/MG) e Mestre em Ciências Humanas (UFVJM/Museu do Louvre). Trabalha como arte-educadora no Instituto Brasileiro de Museus. Seu livro de contos As Putas Escrevem (Urutau, 2024) recebeu menção honrosa no Concurso Nacional da UBE/PB. Foi finalista do Prêmio Internacional Pena de Ouro com um conto integrante do seu livro Oniros (Urutau, 2022). Abafada, livro vencedor do Prêmio Caio Fernando Abreu 2024, é seu primeiro romance.

Os dias de sempre

Gosto quando as entidades narradoras se mostram em matéria. Têm voz, saliva, dentes, glote, língua, e desse aparato de carne, ossos e líquidos, trazem à tona uma humanidade que ressoa grave ou aguda, gritante ou sussurrada, dando contorno a todas as contradições que unem espírito e corpo, no que chamamos de vida humana.

Os dias de sempre, da escritora Helena Terra, me pegou pela voz de Mariana, seus pensamentos e a forma de expressá-los. Uma narradora cujo espírito tropeça o tempo todo na própria existência e na matéria que rege a vida social. E eu adoro narradoras que tropeçam em si mesmas e no mundo, e assim revelam de si aquilo que o discurso acaba buscando camuflar.

Os dias de sempre nos apresenta Mariana e suas relações íntimas, assim como todo um contexto social e político e uma estrutura que por vezes parece tão solidificada que se torna quase impossível desmanchar-se no ar. Helena Terra não traça diferença entre o íntimo e o público, feito um bicho de duas cabeças, um vai comendo e parindo ao outro, um refletindo o outro, como num jogo de espelhos, espelho no qual Mariana custa a se reconhecer e quando se reconhece sentimos que talvez adoraria poder arrancar a própria cara e vestir uma mais de acordo.

Eu gosto bastante de narrativas que trazem a família ao centro do debate e que discutem justamente essa possibilidade ou impossibilidade de escapar do destino do sangue-social. Gosto quando as personagens se veem presas justamente na fronteira do escape, porque parece, afinal, que se escapa ao mesmo tempo em que não se escapa do destino do sangue-social.

Outro ponto alto do livro é a forma como Helena Terra modula a voz da Mariana adulta, jovem e criança, sem condescendências, mas com consciência de que o olhar da criança é outro e seu corpo-pensamento implica em sua fala, assim como a Mariana jovem não é feito Mariana adulta, guardando, talvez, a porta dos dois mundos em si. Enquanto a voz da Mariana criança é resultado de uma língua que recusa domesticar-se, a da Mariana adulta se transforma, talvez aceitando certos moldes, sem deixar de guardar revolta contra os próprios aceites. Uma língua sempre e ainda rebelde, que sente dor quando acaba por caber na boca.

Em dias de sempre, encontramos uma prosa fluida, bem modulada, um ritmo sedutor e personagens profundamente humanas, que bailam nas contradições da vida, e não podem ser salvas e nem odiadas por completo. Esse lugar do vão, os territórios de difícil estabilidade para nossas mentes desejosas da lógica que a tudo dá ordem. Mariana é fruto dessas contradições, dessa mãe, desse pai, desses gêmeos, que não pendem de todo para um lado nem para o outro, mas habitam o único lugar possível de pulsação da humanidade. Qualquer outro talvez seja mera ilusão.

A abordagem dos temas que perpassam o livro é a de uma mulher branca e rica, que não parece caber muito bem em sua classe, embora caiba, porque é difícil livrar-se completamente das heranças, apresentando seu passado, não como quem o revisa, mas como quem o vive, e esse passado reverbera em seu presente como num diálogo que se faz além do tempo.

Acompanhamos a relação de lealdade de Mariana à sua babá Nena, a quem reconhece como mãe tanto quanto Júlia, a mãe biológica – por vezes ficamos com a sensação de que Nena é dona de um pedaço mais materno em Mariana, mas logo a narrativa reposiciona Júlia na visão da própria filha e não há mesmo lugar de descanso nas relações profundas. Todas essas relações, e sobretudo a relação com Nena, moldam contundentemente a ética de Mariana, sendo capaz de desviá-la de certo curso do legado de sua família, mas esse é um livro que também abre espaço para nos perguntarmos se Mariana já nasce com tendência ao escape, se é a relação com Nena que lhe cava a fuga ou se é resultado do próprio tempo histórico e das próprias brechas em sua família essa indomesticação precoce. Talvez não haja uma só resposta, uma vida é sempre fruto de algumas pequenas explosões.

Os dias de sempre, cujo título se desdobra em camadas ao longo da narrativa, é um livro que aborda o racismo, o abismo de classe, o machismo, as violências sociais e estruturais que se alastram muitas vezes de forma silenciosa entre nós brasileiros, como se sem alardes pudesse ganhar um espaço de naturalização que é ainda mais violento. O romance também se ambienta na época da ditadura militar no Brasil, trazendo tal contexto de forma pontuada, como se volta e meia uma porta da casa abrisse e deixasse antever os “primos” acolhidos pelo pai de Mariana. Pontuação condizente com o absorvido pela guria atenta e curiosa. Com o passar do tempo é como se a fresta da porta fosse cada vez mais se escancarando, conforme Mariana passa a entender mais da vida e ao passo que o próprio contexto se agrava.

Helena Terra não é condescendente com sua narradora, a deixa viver, respirar, tropeçar, sujar-se na trama da própria vida, e é o narrar de Mariana que traz refresco e novas possibilidades de olhar para as temáticas desenvolvidas no romance. Os dias de sempre resulta em uma narrativa honesta, com um trabalho de linguagem bem desenvolvido, uma trama que recua e avança no tempo de maneira muito bem realizada e com personagens e contextos interessantes, capazes de seduzir do começo ao fim.

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Version 1.0.0

Os dias de sempre

Helena Terra*

Romance

Besouros abstêmios

2023

*Helena Terra nasceu em Vacaria e vive em Porto Alegre. Publicou os romances A Condição Indestrutível de Ter Sido (Editora Dublinense, 2013), Bonequinha de Lixo (Editora Diadorim, 2021) e Os dias de sempre (Editora Besouros Abstêmios, 2023). Organizou, com o escritor Luiz Ruffato, a antologia Uns e Outros (TAG Livros, 2017). É coautora na novela Bem que Eu Gostaria de Saber O Que é O Amor (Editora Bestiário, 2020, com o ator e escritor Heitor Schmidt). É jornalista e editora na Besouros Abstêmios. É também conselheira e vice-presidente da Associação Literatura Livre, no Rio de Janeiro.

rebu vem aí

E 2025 foi um ano que só acabou quando acabou mesmo. rebu, um original de narrativas curtas que escrevi entre 2024 e 2025, talvez o processo mais rápido de todos, embora não menos obsessivo na reescrita, acabou sendo o vencedor do prêmio Caio Fernando Abreu do Mix Literário – Festival Mix Brasil, maior festival de cultura queer da América Latina. A premiação é a publicação do livro pela editora Reformatório. Não imaginei lançar livro novo tão cedo, e inscrevi rebu no prêmio porque gosto de testar os originais, até como um exercício de afastamento, de julgar a prontidão. Esse livrinho rebelde me aprontou essa surpresa. Fiquei bem feliz e agora vem aí mesmo, em 2026, voltando pra casa das narrativas curtas, rebu!

https://www.publishnews.com.br/materias/2025/11/27/vencedores-do-mix-literario-ressaltam-panorama-vibrante-da-literatura-queer

Açougueira e suas conquistas

Eita que 2025 foi um ano duríssimo, mas no final trouxe uns bons respiros em relação ao trabalho. Comecei o ano sem editora e sem perspectiva, quase engavetando o romance por falta de fôlego para seguir em frente sozinha. Se com editora já é bem complicado, sem me parecia impossível. Mas pra ser mulher e escritora no Brasil a gente tem que ter certa dose de teimosia e resolvi teimar. Ainda bem. Hoje consigo ver o livro circulando mais, chegando em mais gente e me surpreendendo. Fui do jeito que pude ir. Devagar e sempre. E não me arrependo. A caminhada nos prêmios ajudou muito o livro a ganhar uns respiros e espaços. Eu sempre lamento que os prêmios sejam as grandes vitrines das pessoas escritoras independentes, primeiro porque os prêmios são recortes muito subjetivos e complexos (algumas vezes injustíssimos e pouco transparentes), e segundo porque precisamos de políticas públicas pro setor, para que realmente possamos movimentar a cena literária de maneira mais democrática e acessível e abrir espaço pra quem escreve para além das bolhas. Ressalva feita, inscrevi Açougueira em tudo quanto foi prêmio, na tentativa de ver o livro sendo lido, nem que fosse pelas bancas dos certames. Não se se foi lido em todos (alguns desconfio que não, dada a quantidade de livros inscritos e o tempo para a comissão de júri ler), mas arriscar foi bom mesmo com todas as críticas e estranhezas que rondam as premiações. Açougueira ficou finalista do prêmio Minuano de Literatura e venceu os prêmios Loba, Academia Rio-Grandense de Letras e Cruz e Souza (2º lugar romance nacional). E esse movimento todo tem feito o livro dar uma arejada, ser mais buscado nas plataformas, mais lido e comentado. Um livro que estava quase perdido, de repente ganhou uma vida a mais. Imagina se tivéssemos, para além dos prêmios, políticas públicas sérias para o setor? Os prêmios seriam apenas uma opção, mais uma possibilidade, perdendo a centralidade e quem sabe até melhorassem um tanto nas suas execuções. Ah, vale ressaltar ainda que o Cruz e Sousa tinha uma premiação em dinheiro, coisa tão rara e necessária, porque é um tempo pago que ganhamos, pra ser investido na escrita e consequentemente na vida, ou o contrário. Agora o desejo é que Açougueira, quem sabe, consiga nova casa editorial e possa circular mais, acho que ainda tem potencial pra chegar em mais gente, ainda é um livro que circula pouco, apesar dos respiros, muito porque sozinha eu tenho minhas limitações. Espero que um dia ganhe uma segunda edição, acreditar não custa quase nada!

https://www.capituloz.com.br/post/vencedoras-pr%C3%AAmio-loba-2025

https://www.correiodopovo.com.br/arteagenda/academia-rio-grandense-de-letras-entrega-premios-literarios-de-2025-1.1676440

https://www.imagemdailha.com.br/noticias/cidade/cruz-e-sousa-inspira-noite-de-reconhecimentos-culturais.html

Açougueira – finalista do prêmio Minuano de literatura

Fiquei bem feliz com a notícia de que Açougueira está finalista do prêmio Minuano de literatura, concedido pelo Instituto Estadual do Livro do Rio Grande do Sul. A lista de finalistas está muito bonita, cheia de gente que admiro.

Que essa oportunidade aproxime mais gente leitora do livro. Esse é o objetivo.

Texto inédito

Quinta passada saiu um texto inédito no site Especiaria, que aliás tem uma curadoria muito legal de comentários sobre livros, indicações de obras de diversas linguagens artísticas, prosas e poesias inéditas de quem tá se dedicando à literatura no tempo presente. Recomendo a visita ao site.

Fica aqui também o convite especial para a leitura desse meu exercício de ficção inédito chamado Gavião poeta. Chamo de exercício de ficção inédito por se tratar de um texto que faz parte do projeto de um futuro livro de contos, então tudo nele é movimento e abertura. Se te animar aí, dá uma lida e depois vem aqui me contar? A escrita como um espaço aberto ao movimento e à abertura muito me interessa. Fico grata ao Especiaria pela oportunidade de jogar a escrita na roda.

Aqui segue o link: https://especiaria.art.br/gaviao-poeta/

Vejam que ainda por cima tive a honra de ter uma colagem do grande Léo Tavares ilustrando este texto. O Léo é um artista visual e um escritor de uma preciosidade que não encontro medidas. Recomendo que sigam o Léo no instagram e acompanhem os trabalhos dele. https://www.instagram.com/leotavaresarte/

Até a próxima prosa.

biriríbororó (5)

Tem tempo ando ruminando escrever sobre o gênero ensaio. Das últimas leituras são as que mais têm me entusiasmado. Andei esses meses meio detetive, investigando o motivo. Na ruminação do que escrever me chegou forte o gosto da palavra honestidade. Esse gosto de honestidade tem me seduzido nos ensaios. Uma honestidade na forma, no jeito de conduzir a escrita, sem salamaleques, sem imagens forçadas, sem uma intenção me conduzindo do início ao fim (mesmo que tenha), sem tantas frases para sublinhar. E por isso andei sublinhando várias, inclusive. Porque tudo que é bom é contraditório.

Eu ando com essa cisma. Como leitora e como escritora. Quanto menos frases eu sublinho num livro, tanto melhor. Isso se aplica sobretudo à ficção. Ando detestando quando escrevo frases sublinháveis. Ando virando a cara para os livros que me convocam sublinhar frases belíssimas ou que me fervilham o sangue. Cismei. Cisma é cisma.

É mais que cisma.

Voltemos à honestidade dos ensaios. Ao menos do último que li. Sumário de plantas oficiosas – um ensaio sobre a memória da flora, do Efrén Giraldo, publicado pela Fósforo. De uma beleza simples e livre, como comportam os ensaios, uma fluidez entre pensamentos, conceitos, intimidade, coletividade, memórias, momento presente, vida pessoal, imagens estranhas. E uma dedicação a investigar o caráter estético das plantas. Unindo suas paixões, seus hobbies e obsessões profissionais.

Esse livro me fez pensar em narrar com uma planta. Não tiro mais isso da cabeça. Talvez porque ele tenha afirmado que a narrativa não se presta a isso, não tão bem quanto o poema ou o ensaio. Narrar como planta não é o mesmo que escrever uma narrativa sobre uma planta, ou humanizando uma planta, mas deixar nascer uma narrativa que imana da planta. Giraldo nos diz que a planta é o “invólucro da forma, a linguagem artística que a natureza continua falando para nós”. Desde então nunca mais olhei meu pequenino quintal de apartamento do mesmo jeito. Eu, caçadora de formas para o que escrevo, agora olho as plantas como se elas me sussurrassem a cada segundo novas possibilidades de narrar o mundo. Verdadeiras professoras de estética.

Um abacateiro me ensinou algo sobre a pausa em movimento, um dia desses. Foram tantos meses para brotar, para algo do abacateiro vir à tona, que quase foi dado como morto, ainda bem que confiei no ponto verde que verdejava paciente naquilo que parecia terra arrasada. O danado agora está enorme e com folhinhas desabrochando. Espichou da noite para o dia aos nossos olhos de humanos, embora já viesse há meses num resiliente movimento, um movimento para si mesmo, uma forma secreta e escondida, silenciosa e acontecida como se em pausa. Eis que explodiu a linguagem do abacateiro. Belíssima. As plantas explodem! Giraldo afirma que as plantas são a vanguarda das formas e que a estética lhes pertence.

Desde então tenho lembrado de cada árvore da qual fui amiga. Aquelas das calçadas de Porto Alegre, com seus cachos de uvas fakes. Adorava brincar com suas bolinhas, seus contornos, as sombras frescas que proporcionavam, um encontro a cada passo, uma experiência de amizade coletiva meio flaneur. Lembro do salgueiro-chorão e do flamboyant, árvores de quintais em que morei e que se tornaram amigas e confidentes e parceiras de brincadeira, íntimas, sabiam todos os meus segredos de criança. A memória que tenho delas é como a memória que tenho das minhas pessoas.  Chego na bergamoteira que plantei tirando a semente da boca depois de comer uma berga e que agora está aqui atrás de mim, ali no quintalzinho, enquanto escrevo. Minha árvore de apartamento.

Lembro das cismas de não sublinhar frase nos livros. É óbvio que bons livros sempre têm trechos sublinháveis, mas eu peguei para mim isso de que quanto menos as frases de um livro convocam para serem sublinhadas, melhor é a leitura. Um autor que amo é o Faulkner, e não tem quase nenhum sublinhado nos romances que eu já li dele. Conecto isso com a tal intenção de ser literário e escrever coisas bonitas ou citáveis. Acho que é por aí, uma parte do enrosco é por aí, mas é mais que isso, vai além, tem uma bifurcação onde as coisas se separam também. E é justo no outro caminho da bifurcação, aquele que ainda não consigo adentrar, que estão outras questões interessantes.

Mas voltemos ao caminho que por enquanto sei caminhar. Gosto daquelas narrativas, que como as plantas, são sem a intenção de ser. Não que a pessoa escritora não tenha que ter nenhuma intenção, óbvio que não, mas há uma intenção prévia e apontada para um lugar específico que alisa o texto, tirando as suas ranhuras, que busca no texto algo que é de fora dele. Lembro daquele trecho do João Cabral de Melo Neto

 “…como domar a explosão​

com mão serena e contida,​

sem deixar que se derrame​

a flor que traz escondida,​

e como, então, trabalhá-la​

com mão certa, pouca e extrema:​

sem perfumar sua flor,​

sem poetizar seu poema.”

O bom de escrever como se ensaia, e aqui me refiro ao conceito-prática de ensaio como se costuma utilizar no teatro, é que podemos não saber dizer, escrever como quem toma notas, faz colagens, composições de estados e imagens e recordações e reflexões e conceitos e poemas e desvios. O caminho vai se fazendo no próprio texto e muitas vezes precisamos escrevê-lo mil vezes até que encontremos a chave. A cada ensaio uma camada vai sendo adicionada à coisa. A cada camada uma nova coisa se parindo pelo interior dela mesma.

Tenho acompanhado os processos de “brotagem” (neologismo porque me lembrou brodagem) das plantas e na grande maioria se dão em um parir a partir de si para o mundo. Encurvadas e amassadas elas forçam passagem por caules e folhas mais velhas e despontam o novo. Geralmente nascem em coloração diversa, mais claras e muito lustrosas. Pouco a pouco vão perdendo a curvatura e o amassamento e o brilho. Escurecem. Viram plantas em riste. Se compõem.

Ensaiar é meio assim. Vai-se parindo a obra de dentro da própria obra e cada ato é uma descoberta e um novo ato. Não há uma intenção daquelas sublinháveis, quando há fica evidente e não funciona, o jogo tende a morrer. O gênero ensaio me parece ter uma irmandade com o ensaio-prático, porque reclama a composição, a costura, a camada sobre camada, a mistura de materiais de diversas origens. A cada momento parindo-se de si mesmo. “A lição mais importante que a árvore transmite – talvez a lição moral mais importante que já surgiu na terra, das rochas, dos animais – é a própria lição de imanência do que é, sem a menor preocupação com a opinião ou os gostos alheios, ou seja, com a crítica”. Neste trecho é como se o ato-nascimento das plantas fosse a base de toda a sua vida. Ser, apenas ser como quem nasce de si, sem existir além do ato. E aqui encontro mais uma pista sobre a minha cisma, sobre a narrativa que escapa das frases de efeito, da intenção de provocar algo externamente.

Lendo agora o Palmeiras Selvagens, do Faulkner, nenhuma frase me convoca o lápis, às vezes sublinho uma coisa ou outra pelo estudo e investigação da linguagem, mas não há esse chamado do fascínio do texto. Há, no entanto, uma força lenta e poderosa que se arrasta feito o vento e as águas que compõem o romance, se entranhando na gente, arrastando nossas certezas. É menos espetáculo e mais acontecimento. A narrativa é. Estou há meses lendo esse romance e não me perco, não me afasto das personagens, não esqueço as pulsações da história.

Tem algo aí, né?! Me parece que sim.

Giraldo me provoca quando diz: “A narrativa parece ser capaz de às vezes contar certas histórias sobre plantas, mas é privilégio do poema e do ensaio pensar e ser como planta”. Quero acreditar que a narrativa também pode ser como planta. Imanar. E para isso talvez a pessoa escritora precise se trabalhar e muito, para deixar a narrativa livre para ser, no sentido de parir-se a si, encurvada e amassada sobre si mesma, sair aos poucos, até ficar em riste. Uma tarefa e tanto. Talvez possível de ser alcançada. O mais difícil, quem sabe, seja mesmo o tempo e o silêncio. Meses e meses como se nada acontecesse enquanto tudo acontece num mistério profundo que não dominamos. Ser o próprio tempo. Imanar da narrativa o silêncio e o tempo das plantas é o maior mistério a ser perseguido. Não só em uma narrativa, mas na vida.

E aqui não é o fim desse texto. Talvez nem seu começo. Apenas uma pista. Parece que nada está acontecendo, mas pode ser apenas o tempo de enraizar.

Voltarei nesses tópicos mais adiante.

Aqui as capas dos livros citados: